Agora é tarde, Eliza é morta.

Posted: 10/07/2010 in Feminismo, Futebol

No séc. XIV em Portugal, Inês de Castro foi morta diante seus filhos, condenada por um crime de não cometeu. Eliza Samudio também foi morta diante seu filho, e tal qual Inês, está sendo condenada por seu próprio assassinato.

Hoje toda a imprensa se vira para o caso “bárbaro que chocou o país” do mês.  Mal se apagam as luzes do julgamento dos Nardonni, um novo Monstro Assassino nos é apresentado. Para a felicidade da mídia sempre ávida por escândalos, não é um anônimo, é um goleiro de um dos maiores times de Futebol do Brasil, e isso em plena Copa do Mundo! Seria perfeito se não por um detalhe, a vítima. Não temos mais a inocência branca de classe média  de uma Isabela, nem tão pouco, para os mais antigos, uma jovem estrela Global como  Daniela Perez. Não, infelizmente para imprensa a vítima é uma mulher sem expressão, com fama de aventureira, e que jamais seria recebida pela altas rodas (a não ser é claro quando aparece de bibelô de algum empresário ou um atleta famoso, que passará a ser tratada como troféu). Não tem como fazer as pessoas sentirem pena dela.  Mas eles são espertos, e resolvem inverter o jogo. Primeiro, em vez de chamar o caso pelo nome da vítima como é de costume (Caso Isabela, Caso Daniela etc), chamam de Caso do Goleiro Bruno, assim focam no criminoso, ou melhor, na “outra” vitima, que por ser um rapaz “humilde” (lê-se de origem pobre), diante uma exploradora,  acabou perdendo a a cabeça e cometendo uma barbaridade. E o circo está armado,  Na falta de uma vitima decente para se apresentar, mostram um monstro que ao mesmo tempo é vitima da sociedade (que é todo mundo menos claro quem realmente manda) , e ainda de quebra mandam uma mensagem de que pobre não tem condição de melhorar de vida por que vai fazer besteira, e que mulher “desse tipo” tem mesmo é que morrer. Já dá pra por no ar Datena.

Eliza não morreu porque merecia. Ela não merecia, independentes das escolhas que fez ou que teve que fazer  na vida. Ela não morreu porque um jovem da periferia se deslumbrou com o sucesso. Eliza morreu porque era uma mulher que tinha perdido sua utilidade para a sociedade capitalista e machista. E como Eliza, outras tantas mulheres são mortas no Brasil, a maioria não aparece no jornal, ou quando aparecem,  são tratadas como Eliza: culpadas do próprio assassinato.

Muitos estão sendo apontados como assassinos além de Bruno, mas um de seus principais cúmplices  sairá ileso dessa: o Estado. Eliza morreu porque o estado é negligente,  não garante segurança a mulheres vítimas de agressão,  e que cria a lei Maria da Penha, mas não dá condições para mesma ser aplicada. Eliza procurou a delegacia para denunciar Bruno e o estado nada fez. bruno assumiu, em pleno oito de março, que batia em mulheres, e mesmo depois da denuncia de Eliza. Ela poderia está viva hoje, se o estado tivesse minimamente comprido sua própria lei

Inês de Castro foi vingada, mas certamente Eliza não será.  mesmo seus assassinos presos, outras mulheres anônimas continuarão morrendo fruto do machismo.  Alguns  soltarão bravatas em “nome das autoridades”, ou culparão “toda sociedade” e por algum tempo vão fingir que fazem alguma coisa contra isso, apenas para dar tempo para o próximo crime que chocará o país (de preferência com uma vitima criança branca). A esses eu digo, agora é tarde, Eliza é morta.

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Comentários
  1. Ubirajara diz:

    ei, mah, vai postar mais opiniões, não?

  2. Ubirajara diz:

    Fred, tt coisa acontecendo e mais nada no blog… Tu pode adicionar trecos ao teu site pra, como teu twitter ou adicionar colaboradores para continuarem postando, devidamente identificados…

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